Solo no paisagismo: por que um bom jardim começa abaixo da superfície

Solo no paisagismo: por que um bom jardim começa abaixo da superfície

Quando pensamos em um projeto paisagístico, nossa atenção naturalmente se volta para aquilo que conseguimos enxergar: as plantas, as formas, as cores, os caminhos, os materiais, a iluminação e a relação do jardim com a arquitetura.

Mas uma parte importante da paisagem permanece escondida e pode determinar o sucesso ou o fracasso de tudo aquilo que acontece acima dela: o solo.

Vejo projetos com grande cuidado na escolha das espécies e na composição estética, mas pouca atenção às condições em que essas plantas serão implantadas. O solo acaba sendo tratado apenas como o lugar onde a vegetação será colocada, quando na realidade é um sistema complexo, formado por componentes físicos, químicos e biológicos que interagem continuamente entre si.

É nele que as raízes encontram água, oxigênio e nutrientes. É também nele que vivem fungos, bactérias e inúmeros outros organismos envolvidos na decomposição da matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes e nas relações estabelecidas entre raízes e ambiente.

Por isso, escolher a planta correta é apenas parte da equação.

Uma espécie pode ser perfeitamente adequada ao clima, à luminosidade e à proposta estética do projeto e, ainda assim, apresentar um péssimo desenvolvimento se encontrar um solo compactado, mal drenado ou preparado sem considerar suas necessidades.

E é aqui que precisamos começar a enxergar o solo como parte do projeto de paisagismo.

A paisagem também acontece abaixo da superfície

Quando desenhamos um jardim em planta, pensamos em metros quadrados: delimitamos os canteiros, o gramados, os caminhos, as árvores e os conjuntos vegetais. Para uma planta, porém, um canteiro não existe apenas em metros quadrados. Ele possui profundidade e volume.

Essa diferença parece simples, mas muda bastante nossa forma de projetar.

Minixhofer e Stangl (2021), ao estudarem a relação entre solos e infraestrutura verde urbana, chamam atenção justamente para isso: no planejamento das cidades e da paisagem, o solo frequentemente é percebido de maneira bidimensional, como uma área na superfície, enquanto sua profundidade, qualidade e funções recebem menos atenção.

Só que é nesse volume abaixo da superfície que precisamos armazenar e movimentar a água, permitir as trocas gasosas, disponibilizar nutrientes e criar espaço para o desenvolvimento das raízes.

E o problema se torna ainda mais relevante quando o jardim está associado a uma construção.

Escavações, aterros, retirada das camadas superficiais, nivelamento e circulação de máquinas podem alterar profundamente as condições encontradas ao final de uma obra. Fiorentino et al. (2025) destacam justamente a compactação e outras intervenções decorrentes da urbanização entre os processos capazes de alterar a estrutura e as funções ecológicas do solo.

Duas áreas podem parecer exatamente iguais na superfície e oferecer condições completamente diferentes para uma mesma planta. Talvez esteja aí uma primeira mudança necessária na forma como pensamos o paisagismo: o solo não é o espaço que sobra entre a construção e a vegetação. Ele faz parte da infraestrutura da paisagem.

Um solo saudável não é apenas um solo “bem adubado”

Outro equívoco frequente é associar qualidade do solo apenas à fertilidade.

Uma revisão da literatura brasileira realizada por Simon et al. (2022) mostra que compreender a qualidade de um solo exige olhar conjuntamente para indicadores físicos, químicos e biológicos.

Na prática, isso significa que não basta perguntar quais nutrientes existem ali. Precisamos entender a estrutura do solo, sua porosidade, sua densidade e a capacidade de movimentar água e ar. Precisamos conhecer as condições químicas, como pH e disponibilidade de nutrientes.

E precisamos lembrar que existe uma intensa atividade biológica acontecendo nesse ambiente.

Esses elementos não funcionam isoladamente. Hartmann e Six (2023), por exemplo, mostram como a estrutura e a conectividade dos poros estão relacionadas ao fluxo de água, oxigênio e nutrientes e, ao mesmo tempo, ao funcionamento microbiológico do solo.

Isso ajuda a explicar uma questão importante para o paisagismo: colocar nutrientes no solo não significa necessariamente nutrir a planta. A absorção depende das condições encontradas pelas raízes e de uma série de processos químicos e biológicos.

Existe uma paisagem microscópica junto às raízes

A região do solo diretamente influenciada pelas raízes recebe o nome de rizosfera. É justamente ali que ocorre uma relação particularmente intensa entre planta e microrganismos.

Pantigoso, Newberger e Vivanco (2022) mostram que as próprias plantas modificam esse ambiente por meio das raízes e de seus exsudatos, enquanto características físico-químicas do solo influenciam quais comunidades microbianas conseguem se estabelecer.

Isso é importante porque o solo não abriga apenas organismos causadores de doenças.

Existe uma enorme diversidade de fungos, bactérias e outros organismos envolvidos na decomposição da matéria orgânica, nas transformações de nutrientes e em diferentes processos associados ao funcionamento do sistema solo-planta.

Por isso, intervenções também precisam ser feitas com critério.

O uso de um fungicida, fertilizante ou corretivo não deveria ser uma resposta automática a qualquer sintoma apresentado pela vegetação. Antes de decidir o que aplicar, precisamos compreender o que está acontecendo.

Quando o problema está no solo, mas aparece nas folhas

Uma planta começa a amarelar.

Qual é a primeira hipótese?

Talvez falta de nutrientes. Então vem a adubação.

Mas a presença de um nutriente no solo não significa necessariamente que ele esteja disponível ou que a planta consiga absorvê-lo. O pH pode interferir nessa disponibilidade; problemas radiculares podem limitar a absorção; excesso de água pode comprometer a aeração; e uma camada compactada pode restringir simultaneamente raízes e movimentação da água.

É por isso que corrigir o solo sem conhecê-lo pode significar acrescentar uma solução a um problema que ainda não foi diagnosticado.

O mesmo vale para problemas fitossanitários.

Tratar todo fungo como inimigo seria biologicamente equivocado. E utilizar produtos sucessivamente sem identificar adequadamente a causa pode não apenas deixar de resolver o problema original como criar outros desequilíbrios.

Na agricultura, a resistência de fitopatógenos a fungicidas é um exemplo conhecido de como aplicações repetidas de determinados modos de ação podem selecionar populações menos sensíveis.

A discussão é importante também para o paisagismo porque muda nossa primeira pergunta diante de uma planta com sintomas.

Em vez de começar por: “O que devemos aplicar?”.

talvez devêssemos começar por: “O que está acontecendo nesse ambiente?”. 

- Como está a drenagem?
- Existe compactação?
- Qual é o pH?
- Há disponibilidade adequada de nutrientes?
- Qual profundidade pode ser efetivamente explorada pelas raízes?
- Existe realmente evidência de um patógeno?

As folhas podem revelar que existe um problema. Mas nem sempre revelam onde ele começou.

Preparo do solo no paisagismo não deveria seguir uma receita

Essa discussão nos leva diretamente ao projeto.

Se sabemos que diferentes plantas possuem necessidades diferentes e que os próprios ambientes de um jardim podem apresentar condições distintas, por que prepararíamos todos os canteiros da mesma maneira?

Jim (2021), ao estudar especificações de solo para árvores utilizadas no paisagismo tropical, chama atenção para problemas em especificações genéricas e para a reprodução de recomendações sem adaptação às condições locais.

Isso reforça algo que considero fundamental: não existe uma receita universal de “terra boa” para paisagismo.

Antes de definir o que acrescentar, precisamos entender o que já existe.

A análise química pode revelar informações importantes sobre acidez e disponibilidade de nutrientes. A avaliação física pode identificar compactação, limitações de profundidade e problemas relacionados à movimentação da água. E o histórico da área ajuda a interpretar aquilo que encontramos.

Até a incorporação de matéria orgânica precisa ter um objetivo.

Ao revisar estudos sobre a incorporação de composto em solos urbanos degradados, Kranz et al. (2020) encontraram benefícios relacionados à densidade, infiltração e disponibilidade de água, mas também grande variação nas quantidades e profundidades utilizadas.

Ou seja: um material ser benéfico não significa que qualquer quantidade, em qualquer situação, produzirá o resultado desejado.

Projetar o solo também é projetar o jardim

É aqui que o solo deixa de ser apenas uma preocupação da implantação e passa a ser uma decisão de projeto.

Em vez de chegar ao final da obra e perguntar “o que colocaremos nesse canteiro?”, podemos começar antes: Que ambiente radicular precisamos criar para que a vegetação especificada consiga viver aqui?

A resposta pode envolver preservar um solo existente, corrigir limitações químicas, recuperar sua estrutura, melhorar determinadas condições físicas, incorporar materiais específicos ou construir um meio de crescimento adequado.

E diferentes ambientes podem exigir soluções diferentes.

Uma árvore de grande porte, um maciço arbustivo e uma composição de herbáceas não deveriam ser pensados apenas pelas diferenças existentes acima da superfície. A Profundidade, a drenagem, a disponibilidade hídrica, a fertilidade e o volume explorável pelas raízes também fazem parte dessa especificação.

Por isso, gosto de pensar o processo em uma sequência: 

diagnosticar → analisar → interpretar → especificar → preparar → implantar → acompanhar.

O desenho mostra onde a vegetação estará.

O projeto do solo procura responder como ela conseguirá viver naquele lugar.

Um bom projeto não deveria ser avaliado apenas no dia da entrega

Um jardim pode parecer extraordinário quando acaba de ser implantado.

As plantas chegam formadas do viveiro, os canteiros estão cobertos, o gramado está verde e a composição finalmente se aproxima daquilo que foi desenhado. Mas a qualidade de um projeto paisagístico não deveria ser avaliada apenas pela fotografia do dia da entrega. A verdadeira resposta começa a aparecer meses e anos depois.

É quando as raízes precisam explorar o solo. Quando a água e o oxigênio precisam continuar circulando. Quando os nutrientes precisam permanecer disponíveis. Quando as plantas, as raízes e as comunidades microbianas começam a estabelecer novas relações naquele ambiente.

Por isso, antes de prescrever aquilo que um solo precisa, precisamos compreender aquilo que ele é!

E talvez essa seja uma provocação necessária para quem projeta paisagens: 

se especificamos cada planta, mas não investigamos as condições que permitirão que suas raízes se desenvolvam, estamos realmente projetando uma paisagem ou apenas organizando plantas sobre uma superfície?

Projetar um jardim não deveria significar apenas decidir onde uma planta será colocada.

Deveria significar criar condições para que ela possa continuar ali daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Porque um projeto de paisagismo pode terminar no papel.

Uma paisagem, não.

Referências

Este artigo foi elaborado a partir de literatura científica sobre qualidade do solo, microbiologia, relações solo-planta, solos urbanos e sua aplicação ao planejamento e desenvolvimento da paisagem.

FIORENTINO, N. et al. Role of plants and urban soils in carbon stock: status, modulators, and sustainable management practices. Plants, v. 14, n. 4, 546, 2025. DOI: 10.3390/plants14040546.

HARTMANN, Martin; SIX, Johan. Soil structure and microbiome functions in agroecosystems. Nature Reviews Earth & Environment, v. 4, p. 4–18, 2023. DOI: 10.1038/s43017-022-00366-w.

JIM, C. Y. Improving soil specification for landscape tree planting in the tropics. Landscape and Urban Planning, v. 208, 104033, 2021. DOI: 10.1016/j.landurbplan.2020.104033.

KRANZ, C. N. et al. The effects of compost incorporation on soil physical properties in urban soils – A concise review. Journal of Environmental Management, v. 261, 110209, 2020. DOI: 10.1016/j.jenvman.2020.110209.

MINIXHOFER, P.; STANGL, R. Green infrastructures and the consideration of their soil-related ecosystem services in urban areas — A systematic literature review. Sustainability, v. 13, n. 6, 3322, 2021. DOI: 10.3390/su13063322.

PANTIGOSO, Hugo A.; NEWBERGER, Derek; VIVANCO, Jorge M. The rhizosphere microbiome: plant–microbial interactions for resource acquisition. Journal of Applied Microbiology, v. 133, n. 5, p. 2864–2876, 2022. DOI: 10.1111/jam.15686.

SIMON, Carla da Penha et al. Soil quality literature in Brazil: a systematic review. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 46, e0210103, 2022. DOI: 10.36783/18069657rbcs20210103.

ZENG, Yijian et al. Monitoring and modeling the soil-plant system toward understanding soil health. Reviews of Geophysics, v. 63, e2024RG000836, 2025. DOI: 10.1029/2024RG000836.

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