Jardins que despertam os sentidos: por que todo bom jardim deveria ser sensorial
Quando falamos em jardim sensorial, é comum imaginar um espaço criado especificamente para estimular o tato, o olfato, a visão, a audição e até o paladar. Mas será que apenas alguns jardins podem ser considerados sensoriais?
Nos últimos anos, tenho percebido uma transformação na maneira como muitos jardins são concebidos. Gosto de chamar esse fenômeno de “natureza morta”: jardins reduzidos a pequenos canteiros, com pouca diversidade vegetal, pouca variação de texturas e quase nenhum espaço para experimentar verdadeiramente a paisagem e estabelecer uma conexão com ela.
São espaços que podem ser visualmente organizados e esteticamente agradáveis, mas que deixam de explorar aquilo que, para mim, torna um jardim realmente especial: sua capacidade de nos fazer parar, caminhar, tocar, sentir aromas, ouvir os sons da natureza e criar uma relação com aquele lugar.
Um jardim pode ser bonito. Mas será que ele também é capaz de ser vivido?
É a partir dessa pergunta que proponho ampliar a maneira como pensamos o jardim sensorial.
O que é um jardim sensorial?
De maneira geral, um jardim sensorial é um espaço concebido para favorecer experiências multissensoriais por meio dos elementos naturais, estimulando percepções visuais, táteis, auditivas, olfativas e até gustativas.
Isso pode acontecer através das cores e formas da vegetação, dos aromas das plantas, das diferentes texturas, do movimento das folhas, dos sons produzidos pela água, pelo vento ou pela fauna e, em determinados projetos, por espécies comestíveis.
Mas pensar a sensorialidade apenas como uma lista dos cinco sentidos pode limitar bastante as possibilidades do paisagismo. Quando entramos em um jardim, nossos sentidos não funcionam separadamente.
Uma gramínea que se movimenta com o vento produz simultaneamente uma experiência visual e sonora. Uma árvore não oferece apenas forma e cor: ela produz sombra, modifica a temperatura, altera nossa percepção de escala, cria abrigo e pode atrair pássaros e outros animais.
Uma planta aromática também não existe apenas para ser cheirada. Sua textura, forma, floração, movimento e posição no percurso participam da maneira como experimentamos aquele espaço.
É a sobreposição desses estímulos que transforma a paisagem em experiência.
Todo jardim é sensorial?
Essa é justamente a questão que considero mais interessante.Se experimentamos um jardim não apenas por aquilo que vemos, mas também pelo corpo e pelos demais sentidos, talvez não faça sentido dividir os jardins simplesmente entre sensoriais e não sensoriais.
De Wit (2016), ao discutir a experiência sensorial da paisagem, diferencia a percepção de paisagens observadas à distância daquela proporcionada por espaços nos quais podemos entrar, caminhar e estabelecer proximidade. É justamente essa escala mais íntima do jardim que favorece uma experiência multissensorial.
A autora descreve, por exemplo, como a vegetação pode tocar o corpo durante um percurso, como o canto dos pássaros modifica nossa percepção do silêncio e como vento, luz e vegetação transformam continuamente a experiência da paisagem.
Nesse sentido, prefiro pensar que todo jardim é sensorial, mas nem todo jardim explora sua sensorialidade com a mesma intensidade. Essa é também uma ideia encontrada na literatura sobre jardins sensoriais: nossa percepção do espaço acontece pela combinação de diferentes informações sensoriais.
Um jardim com pouca diversidade vegetal, poucas variações de estratos, texturas, movimentos e possibilidades de interação continua sendo percebido pelos sentidos. Entretanto, sua experiência pode ser muito mais limitada.
O papel do projeto paisagístico não seria, portanto, simplesmente transformar um jardim em sensorial, mas ampliar e qualificar as possibilidades de experiência que ele oferece.
A sensorialidade dos jardins não é uma ideia nova
Embora hoje utilizemos a expressão “jardim sensorial” para identificar determinados espaços, a relação entre jardim, sentidos e bem-estar é muito mais antiga que o próprio conceito.
Nos jardins persas da Antiguidade, por exemplo, a água assumia papel que ultrapassava sua função prática ou ornamental. Em contraste com a paisagem árida, ela participava da construção de ambientes associados à contemplação, à introspecção e à representação de uma paisagem paradisíaca.
Na Grécia Antiga, natureza e bem-estar também se encontravam nos espaços relacionados aos santuários de Asclépio. Paisagens tranquilas e pátios integravam ambientes destinados à recuperação.
Essa relação assumiu outras formas nos jardins chineses, influenciados por princípios filosóficos e pela busca por harmonia, e nos jardins japoneses associados aos templos budistas, onde pedras, areia, árvores, água e percursos participavam de experiências relacionadas à contemplação e à introspecção.
Durante a Idade Média, jardins de claustros encontrados em hospitais e mosteiros reuniam plantas medicinais, aromáticas e ornamentais e também funcionavam como lugares de recolhimento e contato com a natureza.
Esses exemplos históricos levantam uma questão importante: antes de chamarmos alguns jardins de sensoriais, os jardins já eram espaços feitos para serem experimentados. A literatura contemporânea sobre jardins terapêuticos recupera justamente essa longa relação entre natureza, paisagem e bem-estar (Sillmann; Marques; Mattiuz, 2024).
Talvez, portanto, a sensorialidade não seja algo que acrescentamos ao jardim contemporâneo, mas uma dimensão da experiência com a paisagem que sempre esteve presente e que, em determinados momentos, fomos deixando de explorar.
Quais são os benefícios de um jardim sensorial?
Ampliar a experiência sensorial de um jardim não significa apenas torná-lo mais interessante.
Pesquisas sobre jardins e contato com a natureza vêm identificando efeitos psicológicos, físicos e sociais, incluindo maior sensação de bem-estar, relaxamento, redução do estresse, estímulo à atividade física e oportunidades de interação social (Sillmann; Marques; Mattiuz, 2024).
Um resultado particularmente interessante foi encontrado por Souter-Brown, Hinckson e Duncan (2021).
Em um estudo experimental realizado em uma universidade na Nova Zelândia, 164 participantes foram divididos entre um jardim sensorial, uma praça urbana e um grupo-controle. Os participantes que utilizaram o jardim permaneceram no local por apenas 30 minutos, uma vez por semana, durante quatro semanas.
Ao final do período, o grupo apresentou redução de 16,1% no cortisol salivar, além de aumento de 6,9% no bem-estar percebido e melhora de 2,8% na produtividade, em comparação ao grupo-controle.
O resultado é particularmente interessante porque os mesmos efeitos positivos não foram observados entre os participantes que permaneceram na praça urbana arquitetonicamente projetada.
Isso sugere algo importante para o paisagismo: estar ao ar livre não significa necessariamente vivenciar a mesma experiência. A maneira como concebemos esses espaços e a possibilidade de interação e conexão com elementos naturais importam..
Jardins sensoriais também podem criar espaços mais inclusivos
Existe ainda outra dimensão importante: a acessibilidade.
Zajadacz e Lubarska (2020), ao estudarem jardins sensoriais utilizados por pessoas cegas e com baixa visão, mostram como esses espaços podem favorecer recreação, educação, integração e inclusão social.
Percursos intuitivos, diferentes superfícies, referências táteis, aromas, sons e outras formas de orientação permitem que a paisagem seja compreendida para além da visão.
Mas talvez a conclusão mais interessante seja que muitas dessas soluções não beneficiam exclusivamente pessoas com deficiência. Quando incorporadas adequadamente ao projeto, elas podem tornar jardins e espaços verdes mais compreensíveis, acessíveis e ricos em experiências para diferentes usuários.
Pensar um jardim para diferentes sentidos é, portanto, também uma maneira de pensar um espaço para diferentes pessoas.
Como criar um jardim mais sensorial?
Um projeto de jardim sensorial não precisa começar pela pergunta “qual planta utilizar para cada sentido?”.
A pergunta mais interessante talvez seja:
Que experiência queremos proporcionar neste espaço?
A partir dela, diferentes estratégias de paisagismo podem ampliar a sensorialidade do jardim:
- combinar diferentes estratos, formas e texturas de vegetação;
- utilizar espécies com diferentes épocas de floração;
- posicionar plantas aromáticas onde seus aromas possam realmente ser percebidos;
- trabalhar espécies que respondam ao vento e produzam movimento;
- criar diferentes condições de luz e sombra;
- utilizar água também como elemento sonoro;
- favorecer a presença de pássaros, borboletas e outros animais;
- explorar diferentes texturas nos materiais;
- criar percursos que revelem a paisagem gradualmente;
- oferecer espaços de pausa, contemplação e permanência.
Mas mais estímulos não significam necessariamente um jardim melhor.
Projetar sensorialidade também significa trabalhar contrastes. Depois de um espaço aberto, a sombra. Depois do som da água, o silêncio. Depois de uma composição mais exuberante, um espaço de pausa.
É essa alternância que ajuda a construir ritmo, descoberta e experiência.
Um jardim não precisa apenas ser visto
Talvez o verdadeiro jardim sensorial não seja aquele que recebe esse nome em uma placa.
É aquele que nos convida a permanecer, tocar, ouvir, perceber um aroma, acompanhar a mudança da luz, reconhecer uma textura e estabelecer uma relação com aquele lugar.
Por isso, quando projeto um jardim, a pergunta não deveria ser apenas “como esse espaço vai ficar?”
Também deveríamos perguntar:
- Como será caminhar por ele?
- O que será possível ouvir?
- Que aromas serão percebidos?
- Onde haverá sombra?
- Como essa paisagem mudará ao longo do ano?
- Onde alguém terá vontade de parar?
- E que memória esse jardim poderá deixar?
Um jardim pode ser tecnicamente correto, esteticamente bonito e perfeitamente fotografável e ainda assim oferecer pouco além da imagem.
Quando o paisagismo considera a experiência humana, a vegetação deixa de funcionar apenas como composição estética.
O jardim deixa de ser uma natureza para ser contemplada e passa a ser uma paisagem para ser vivida.
Referências
- DE WIT, Saskia. Sensory landscape experience: stepping outside the visual landscape of the motorway in the Garden of Birds. Journal of Landscape Architecture, v. 11, n. 3, p. 20–31, 2016.
- SILLMANN, Thais Akemi; MARQUES, Paula Oliveira; MATTIUZ, Claudia Fabrino Machado. Therapeutic gardens: historical context, foundations, and landscaping. Ornamental Horticulture, v. 30, 2024.
- SOUTER-BROWN, Gayle; HINCKSON, Erica; DUNCAN, Scott. Effects of a sensory garden on workplace wellbeing: a randomised control trial. Landscape and Urban Planning, v. 207, 103997, 2021.
- ZAJADACZ, Alina; LUBARSKA, Anna. Sensory gardens as places for outdoor recreation adapted to the needs of people with visual impairments. Studia Periegetica, n. 2 (30), 2020.
Respostas de 2
Muito bom, adorei!
Jardim é vida 🧘🏻♂️
Jardim é paz. 🙏🏻
Fiquei com vontade de trocar o ap por uma casa só pra vc fazer meu jardim!!